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REVISTA 2K< http://www.revista2k.com.br >
Seção: Seu Futuro
03/08/2001
Repente multimídia
Universitária baiana produz melhor e mais bonito site sobre literatura
de cordel disponível na web
Até pouco tempo atrás, era muito difícil encontrar
bons trabalhos de literatura de cordel em lugar que não fossem
os próprios livrinhos e folhetos mimeografados vendidos em
feiras nordestinas. Mas o gênero que fascinou alguns mestres
das letras, como Ariano Suassuna, autor do clássico Auto
da Compadecida, vem ganhando novos sopros de popularidade em outras
mídias. Na música, o recitador Lirinha, do grupo pernambucano
Cordel do Fogo Encantado, está conquistando o público
jovem urbano com seus repentes e pelejas - a disputa de rimas entre
dois repentistas - ao som de viola, pandeiro e ganzá. Mas
Lirinha não está só. Outros regionalistas estão
conseguindo expandir sua cultura para além da juventude nordestina
e para muito além dos livrinhos mimeografados. Um dos melhores
exemplos disso é o trabalho da estudante baiana Alice Vargas,
de 22 anos, que decidiu transformar seu projeto experimental do
curso de graduação em Comunicação da
Universidade Federal da Bahia no melhor site disponível na
internet brasileira sobre o universo do cordel.
Alice resolveu tocar o projeto quando se deu conta de que quase
não havia trabalho dos trovadores na internet. "Fiquei
impressionada quando percebi que ninguém tinha pensado em
unir a tradição regional à inovação
da rede mundial de computadores", lembra ela. O resultado foi
o site De Repente, Um passeio pelo Universo das Cantorias, que já
ultrapassou os limites da universidade e está fazendo fama
entre webdesigners e artistas em geral. Conhecer o trabalho de Alice,
como o próprio nome diz, revela de forma surpreendente o
caminho da rica poesia, da música, dos desenhos, das cores
e de todo o universo da poesia popular nordestina - tudo redimensionado
numa nova mídia.
Mais do que um belo trabalho visual, o projeto do site de Alice
consistiu em transformar as informações encontradas
na internet em uma experiência artística com apelo
também narrativo e musical. Não eram muitas as opções.
Tudo o que a estudante encontrou sobre a cultura dos repentes foram
trabalhos acadêmicos e textos sobre folclore nordestino. Nada
de artístico ou inovador e poucas trovas disponibilizadas
online. Mas ela conseguiu. Com a ajuda do Jornal de Poesia, do site
do cantador Elomar e do Cordel.net, de José Honório,
o único site de um repentista de verdade na web, Alice preparou
uma viagem multimídia pelo universo dos trovadores nordestinos
que é de cair o queixo, tanto para quem gosta do estilo quanto
pra quem curte animação digital.
Para seguir fiel ao clima das poesias que reproduz na voz dos próprios
repentistas, a estudante optou por criar um universo cordelista
em tons alaranjados, típicos da região quente e seca
do sertão. Trovadores conhecidos do gênero, como Zé
da Luz, Ivanildo Vilanova e Chico Pedrosa, emprestaram suas vozes
e seus versos para ilustrar os temas mais recorrentes do cordel,
como Padre Cícero, Lampião, o boi, o inferno e o sertão.
Na trilha sonora, há faixas de cantadores populares como
Chico Antônio, Pardal e Verde Lins, e sons extraídos
de músicas do grupo pernambucano da pequena cidade de Arco-Verde,
o Cordel do Fogo Encantado. Mas não é só isso:
Alice procurou construir em sua animação digital,
feita inteiramente em Flash, todas as possibilidades do universo
literário do cordel e suas ligações com a história,
a paisagem, as artes plásticas e outros elementos da cultura
cotidiana do interior do Nordeste. "O cordel não é
só a saga de Lampião ou Padre Cícero. As pelejas
podem ser romanceadas, fantasiosas, tratar de política ou
pornografia, ciclo de secas e retirantes, vaquejadas, contos sobrenaturais
ou simplesmente notícias da rádio, jornais e TV",
diz Alice.
A origem dos poetas populares nordestinos é a mesma do calango,
em Minas, e do cururu, em São Paulo, outros estilos de poesia
improvisada. Todos recordam a tradição medieval ibérica
dos trovadores, que permeia a cultura brasileira. A poesia cantada
pelos cordelistas surpreende. Como citou Orígenes Lessa,
até "as próprias deficiências dos nossos
trovadores tornam ainda mais imprevista e fascinante a sua literatura".
Por não poder aprender o português na escola, o típico
repentista fala truncado, inventa palavras e termina demonstrando
uma criatividade sem fim. "O repente é um vale-tudo
de ritmo e agilidade mental, não importa a beleza da voz
ou a afinação. A força dos discursos é
a grande arma para encurralar o oponente", diz Alice. Pela
beleza, pelo bom gosto e pelo oportuno mergulho na cultura nordestina
que oferece, seu site De Repente, Um passeio pelo Universo das Cantorias
também encurrala. Uma vez lá dentro, é difícil
sair sem visitar todas as páginas.
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