um passeio pelo universo das cantoriasDe Repente

K Zine < http://kzine.cjb.net >
26/08/2001

Cordel movido a Flash

AI! SE SÊSSE...

De volta à cena, a literatura de cordel tem despertado a curiosidade de novos leitores, com o lançamento de livros (a "Biblioteca do Cordel", da editora Hedra; a "História do Brasil em Cordel", de Mark J. Curran, da Edusp), e inspirou a exposição "100 anos do Cordel", em maio último, no Sesc Pompéia, São Paulo. O "bum" se liga ao sucesso do grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado. Em poucos meses, os cabras saíram de Arcoverde (PE), "cruzaram meio mundo" com um explosivo recital de música brasileira, rock rural e poesia sertaneja e chegaram, indiretamente, à capa da edição #8, de maio de 2001, da revista eletrônica de literatura pop TXTmagazine (www.txtmagazine.com). Para criar a animação em Flash da capa da revista - feita, a cada número, por um convidado -, o web-designer Diogo Kalil, 22 anos, usou fragmentos do poema "Ai! Se sêsse...", de Zé da Luz, ou Severino de Andrade Silva, paraibano de Itabaiana (1904-1965). No CD do Cordel (www.recbeat.com.br), "Ai! Se sêsse..." aparece em gravação ao vivo, na voz do cantador Lirinha, no Opinião de Porto Alegre, em outubro de 1999.

A animação em Flash criada por Kalil traz os versos de Zé da Luz para a era visual. "A idéia surgiu do fato das capas da TXT serem baseadas em tipografia e nos cordéis rolar muito de repetir palavras, criando texturas, tanto sonoras quanto visuais", conta o designer, por imeio. Na faixa do disco, o delírio da platéia gaúcha diante das palavras de "Ai! Se sêsse..." - "Se um dia nós se gostasse / se um dia nós se queresse..." -, atesta o alcance temático do poema, escrito no português agrário de Zé da Luz.

O poema fala do amor desmedido, sentimento marcante na arte de todas as épocas. Inclusive a nossa: o amor (freqüentemente transtornado por sexo, hedonismo e violência) é o fio da trama da maioria dos contos e egotrips da safra 2001 de zines eletrônicos. Mas ler os versos de um matuto na animação em Flash da página de abertura de uma revista de ficção urbana não é surpresa: "folk", "popular" e "pop" têm mais raízes em comum do que o separacionismo cultural no permite enxergar.

O som do Cordel do Fogo Encantado também dilui essas fronteiras, porém sem anulá-las - ritmos, timbres e melodias nativos e influências pop (o slide guitar de Clayton Barros; os loops de aboio) são tratados, indistintamente, como aquilo que são, fontes de idéias para boas músicas. Quem viu o espetáculo do Cordel vai se lembrar da cena do boi-bumbá futurista de olhos de lanterna dançando no palco, enquanto o batuque desembesta. O personagem mais nobre do imaginário brasileiro, o Boi Brincante, tornou-se, por sua importância em nossa história, atemporal, ou seja, eternamente contemporâneo. Mas sua atualidade infalível não significa que a violência contra as manifestações coletivas da alucinação popular tenha sido pacificada pela tecnologia globalizante numa união harmônica de culturas até pouco tempo em conflito e afastadas por séculos de incompreensão mútua. "Minhas raízes caminham", nota Lirinha, em "Profecia final", sugerindo que a permanência de uma tradição tem a ver com a sua capacidade de migrar, de se adaptar a novas circunstâncias. O risco da extinção obriga a cosmogonia mestiça a se modificar.

O ENCONTRO DO REPENTE COM O FLASH NO SÍTIO DO CORDEL PSICODÉLICO

O sítio De Repente (www.derepente.f2s.com), criação da web-designer Alice Vargas, 22 anos, é uma das surpresas mais porretas surgidas na "internete" em 2001. Com o subtítulo "Um passeio pelo universo das cantorias", o sítio sintetiza em Flash a vocação multimídia da cultura sertaneja, manifesta, nas artes visuais, pela xilogravura, na música, pela cantoria, e, na palavra escrita, pelos versos do cordel e da poesia matuta. O manejo técnico do software e uma intuição estética medonha permitiram à designer recompor fragmentos da arte agreste num painel digital da herança ancestral nordestina. Rico em surpresas, o sítio deve ser percorrido com vagar e explorado em todos os ícones flutuantes, que escondem pequenas animações inspiradas em xilografismos, estrofes de folhetos e trechos de gravações de cantadores. Sem mais conversa fiada, recomendo uma visita a De Repente a todos aqueles que se interessam pela paradoxal autenticidade que a expressão popular mantém quando em contato com o ambiente informático.

Nota: antes de acessar o sítio, confira se seu micro está com o navegador Explorer 4.0 ou outro superior e o plug-in do Macromedia Flash e se ele tem placa de som ou multimídia e monitor com resolução de 800 por 600 pixels. De Repente foi apresentado no final de julho como trabalho de formatura de Alice Vargas na Faculdade de Comunicação da UFBA.

POETA ZÉ DA LUZ

Quem quer conhecer mais um pouco da obra de Zé da Luz encontra outros quatro poemas dele - "Brasi caboco", "A cacimba", "As flô de Puxinanã" e "A terra caiu no chão" - em uma página do Jornal de Poesia (www.secrel.com.br/jpoesia/zedaluz.html). Da biografia do poeta, diz-que, emigrado para o "Sul maravilha", viveu e morreu no Rio de Janeiro.

PROFECIA Nos versos do folheto "O Marco cibernético", publicado no sítio Cordel Net (www.elogica.com.br/users/honorio), o "cordelista internauta" José Honório, de Timbaúba (PE), imagina uma utopia em que:

"toda inovação
estará sempre a serviço
de uma preservação
dos nossos velhos costumes
sem ferir a tradição".

E profetiza:
"No meu Marco, a multimídia
será tema corriqueiro
teremos CD-ROM sobre
embolador, violeiro
rezador, homem-da-cobra
doutor-raiz e vaqueiro".

Ai! Se sêsse...

Wladimir Cazé

 

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