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  Xilo: A história de um tipo

Seu Dila é um ser, daqueles cheios de histórias para contar. Daqueles que te recebem com um largo sorriso. Daqueles que não existem mais. Este é ele. Ele e sua família. Diz que é irmão de Lampião e amante da última Maria Bonita. São as histórias que conta para qualquer pessoa que queira ouvir. Esta é a sua casinha. Nela, além dele, moram a sua esposa, seus cordéis, sua chapas e uma máquina de tipografia herdada do pai.

No sertão chove às vezes. Quando chove "Seu" Dila cria mais, porque fica feliz. Trabalha com xilogravura nem sabe desde quando. Aos 64 anos lembra de nomes e nomes e nomes. Se você for em sua casa, quer te dar tudo: seus cordéis, um bolo de milho, um café quentinho, um livro, sua foto com o bando de Lampião e muita conversa. Quando cobra, cobra baratinho. E só o faz para sustentar a amante. A Maria Bonita. Metade do que recebe vai para ela. Pela chapa vista acima, da qual criei a fonte, cobrou 5 reais. E disse: -"Não vai fazer falta?"

Esse é o nome de sua firma. Legalizada? O que é isso? E esse é o endereço, caso queira ouvir casos e comer broa de milho. E esse é o seu local de trabalho. Uma mesinha menor do que qualquer outra que possa imaginar. Um estilete já cego e as chapas. Aqui está ele aparando uma das imagens para a capa de seu último cordel, sobre o atentado aos EUA. Seu nome já saiu em muitas publicações, as quais quarda emoldurando-as na parede. Teve trabalho publicado até no exterior, mas ele lamenta não entender o que está escrito.

De onde tirou seu estilo? Não sabe! Não tem método algum. As coisas saem - diz. Pega muita coisa da biografia de Lampião. Na verdade ele não quer falar muito de xilogravura não, quer contar as histórias que viveu ao lando do bando. Em tom de segredo conta que o bando nunca matou ningúem. Não havia violência. Fala cochichando, como se susurrando um baú que se abre. Segredo.

"Qual o seu signo? Então toma aqui a chapa que fiz para capricórnio". Ele quer dar tudo. "Pra você divulgar o trabalho lá no Rio". As histórias que escreve vem do dia a dia. Do que viveu, do que contam para ele, do noticiário na tv. Escreve e manda vender na feira de caruaru. Afinal: "De tudo o que há no mundo, nela tem pra vender". Da cidade não sai: "Meu povo não vá se embora, pela Itapemirim. Pois mesmo perto do fim, nosso sertão tem melhora. O céu tá calado agora, mas vai dar cada trovão, ..."

"Apolo disse que Dila foi Capitão e General escapou de 3 inimigos, Osvaldo Faria fez o Pedestal com 63 Respostas chegou a ser Marechal". Escrevi todo o alfabeto para que ele xilogravasse. Para digitalizar a fonte do senhor. Ele entedeu o que era para fazer, mas não o por quê. Já sei o que você quer! Toma aqui um dos originais com a minha letra! Insisto na chapa. Pede uma semana para fazer. Tenho que ir para outras paragens. Eu mando pelo correio! Chegou, numa caixa de sedex, a chapa. Embrulhadinha, acompanhada do rascunho de alfabeto. Saudades!

(Download:: Tipo Xilo, baseado na letra xilografada de Dila.)

2002. Carla Porto é designer.
 
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