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  Como virei uma designer 010101 ou Uma história de design

Do analógico ao digital em menos de 10 anos.

O mundo era outro em 1992, na melhor escola de design do Rio Grande do Sul, em Santa Maria, uma cidade no interior do estado. Era a época do segundo Encontro Nacional dos Estudantes de Design do Brasil. Design? muita novidade. Um grande logo do evento foi pintado num gramado, em frente a reitoria. As pessoas do campus não entendiam quem eram aquelas pessoas que desenhavam murais pelas paredes. Meu mural preferido, ilustrado por Gerson Klein e Almir Menezes resumia um pouco a idéia do encontro: Personagens que pareciam de Alice no país das Maravilhas, um chapeleiro com uma xícara de chá na mão, bebendo tranqüilamente. E a frase: "Esses incríveis designers e suas idéias maravilhosas".

O design e a profissão de designer eram uma promessa.

As oficinas do evento eram quase totalmente analógicas: técnicas de pintura, ilustração, tipografia, vídeo, fotografia, oficinas de bonecos, criatividade. Foi a primeira vez que os estudantes de design se encontraram, e fizeram trocas, e descobriram que havia mais gente Brasil afora fazendo, e pensando as mesmas coisas. (O encontro anterior, Curitiba, PR, teve participação de apenas umas 3 escolas). Importante lembrar que no Brasil, estávamos na era pré-internet.

O mundo web apenas engatinhava.

O laboratório de informática possuia um computador Amiga, (o máximo em interface gráfica) e um poderoso PC 286. A tela na sua frente representava um mundo novo: Corel draw 2.0. Um software gráfico que permitia fazer criações no computador. Escolher fontes, diagramar um cartaz. Coisas antes só feitas em gráficas especializadas. Foi um espanto poder trocar a fonte de Times para Helvética, sem aquela velha interface com letras verdes da plataforma DOS. OS computadores passaram a fazer parte da vide de pobres mortais, não eram mais exclusividade de quem estudava informática. Até um artista-designer conseguiria usa-lo. A partir de então: mouse na mão e tela 14 polegadas monocromática na frente, o mundo passou a ser binário.

Do design analógico ao digital em menos de 10 anos.

Os impressos: Fazer um layout desenhado, simulando as letras. A mesa de luz era a grande aliada. Era com ela que se copiava os tipos das fontes no catálogo de Letraset, peça essencial em qualquer criação. Copiar, simular as tipografias disponíveis no catálogo. Apresentar um layout para um cliente, se por acaso ele solicitasse uma fonte itálica, você levaria uma semana para apresentar o novo layout.

Depois de aprovado, a arte final: mesas, réguas paralelas, esquadros. E Letraset, decalcada com um lápis, ou o verso de um estilete Staedler. Cola Pritt para encaixar as ilustrações, e outros efeitos gráficos, tudo sobre papel milimetrado e gessado (uma película de gesso mesmo, permitia que, em caso de erro, fosse raspada).

Na seqüência, o fotolito: a arte final era fotografada numa câmara escura. Imagine-se dentro de uma câmera fotográfica: a lente lá na frente, você no meio, visualizando o tamanho desejado, em centímetros ou em paicas. Feito o registro, lentes abertas, quantidade de luminosidade, um disparo de flash, e tinha-se a arte final em KDC, um papel fotográfico de alto contraste especial da Kodak. Esse papel era então revelado, fixado. E finalmente refotografado agora, numa película-filme transparente, o fotolito.

Um fotolito para cada cor-pigmento. Retículas. A partir daqui o processo não mudou tanto assim.

Esse processo descrito acima, levava DIAS. Hoje, resolve-se o layout, as fontes são escolhidas nos cd's de 4000 fontes. Ou desenhadas, e redesenhadas. Só ajustar as cores de RGB para CMYK. Uma gráfica expressa dá saída digital. Em minutos, temos o impresso pronto.

A internet: O curso de design andava , e eu comecei a pesquisar lugares onde eu poderia me especializar fora do país. Pesquisa na biblioteca do campus. Nas prateleiras de periódicos acadêmicos eu controlava a rinite alérgica a poeira, e sonhava com os cursos no Instituto Europeo de Design, em Milão. Os periódicos eram de anos anteriores. Depois de passar tardes encontrando endereços e cursos, você deveria elaborar uma carta e coloca-la no correio. Quanto tempo levaria até você ter uma resposta? Meses.

No laboratório de informática, fala-se numa rede de computadores das instituições de ensino.

Para ter acesso à Rede, você precisa estar dentro de uma universidade ou instituição de pesquisa diretamente plugado no backbone, ou acessa-las remotamente via modem.

O programa de acesso chama-se Gopher. O acesso feito quase que exclusivamente através de computadores rodando UNIX, totalmente em modo texto em telas monocromáticas. Clico nesse ícone (surge esse conceito de ícone, um pictograma que traduz informação). Escolho a opção "Pesquisa pela RNP" (rede nacional de pesquisa).
Interface textual.
Clico em escolha o continente>Europa>país> Itália>instituições de ensino>design>Milão>instituto europeu de Design>Comunicazzione Visiva.
Pronto.

O Gopher permite entrar em outras instituições acadêmicas e de pesquisa e olhar informações em modo texto. Tenho todas as informações, antes, inalcansáveis. E isso levou apenas algumas horas (sim, demorava).

No final de 1994, uma grande revolução. A invenção de um simples programa chamando browser estava prestes a mudar o mundo para sempre, de forma inimaginável. Navegar. O Netscape Navigator.

Surge esse conceito: navegar pelas informações.

Navegar pelas imagens. Ter acesso ao museu do Louvre sem ir a Paris. Ver cartazes da Bauhaus sem precisar comprar aqueles livros caros. Foi então inventado um sistema de comunicação via internet chamado World Wide Web. O WWW era semelhante ao Gopher, mas com uma diferença fundamental: era em modo gráfico e permitia a visualização de imagens junto com os textos. Portanto, ao visitar o computador da universidade de Milão, além dos textos, dava para visualizar ainda uma bela foto da entrada do campus com uma placa escrita "Benvenutto!".

As palavras em azul sublinhadas podiam ser clicadas com o mouse e isso fazia com que fosse possível se aprofundar em algum assunto relacionado com a tal palavra. Este aprofundamento podia ser alguma referência no mesmo computador ou mesmo levar para outro computador em outra universidade em outra parte do mundo. Era o conceito do hipertexto.

O mundo ficou diferente nesse dia. Aquilo não era só um simples programa. Era uma revolução no mundo da comunicação, e do design.

O design digital: David Carson, Neville Brody. Uma nova geração de designers, ou melhor, uma nova geração de Designs passa a ser criada: o computador facilita algumas criações. Surgem transparências, imagens sobrepostas, que a cor-pigmento não permitia. As cores luz e o excesso visual criam a estética dos anos 90. O suporte digital assusta grande parte dos designers.

Não admite-se uma criação apenas digital. O medo que o analógico morra, que os designers parem de desenhar, que parem de pintar. Que percam o amor pelos lápis 6b. Professores proibem uso de computadores. Temem que os trabalhsoo dos alunos percam sua identidade, fiquem iguais. E isso acontece de fato. Trabalhos empastelados. Apresentação de um layout impresso num impressora jato de tinta, sem uma boa calibragem de cores. O que via-se na tela, vermelho, impresso, virava quase marrom. As justificativas: não deu pra imprimir, não tenho computador em casa, a impressora não era boa. E o alto preço dos equipamentos de informática.

Em 1994, uma impressora colorida a HP Deskjet 500 C, custou exatos novecentos dólares, pagos em 10 vezes. Outros estimulam o uso do computador. As criações ficam mais rápidas. Fazer um rafe, escanear, trabalhar em cima, vetorizar. Associar analógico e digital para atingir um resultado final criativo e exclusivo. Web design: sou designer. Não sei se gosto de ser chamada de web designer. Web designer está para essa década como estava video-maker nos anos 80.

Ora. A única coisa que mudou foi o suporte. Antes papel, agora digital. A interface gráfica é a mesma, e os conceitos de criação, cor, legibilidade, forma, composição são os mesmos. Eu já desenhava quando ainda não se falava em pixels, provedores de acesso, portais. Ou webdesign. Mas virei também, uma designer 01010101010101001.

Esses incríveis designers e suas idéias maravilhosas.

26/07/2002. Mari Fiorelli é designer 01001101.
 
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