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  Eu fui pra Maracangalha, eu fui

Outro dia estava me dando conta do quanto, muitas vezes, nos envolvemos pouco com o tema para o qual estamos desenvolvendo um projeto gráfico. Alguém chega dizendo para você que gostaria que você fizesse o layout, mal lhe passa o logotipo, dá uma dica de cores e lhe passa o tema. Ai você vai lá, se descabela e faz o negócio. E o que foi que ficou de experiência, de enriquecimento (além da parte financeira)?

Há projetos sobre os quais há a necessidade de um mergulho no tema, e isso às vezes acaba sendo a melhor parte. A palavra de ordem passa a ser pesquisar, seja na internet, em livros, em revistas, conversando sobre o assunto, ouvindo músicas, assistindo a vídeos.

O cliente, de certa forma, espera de você um projeto gráfico que encante aos olhos e atraia um público acostumado com signos específicos de uma determinada área. E, nesses casos, é preciso sair da lista favorita de tipos, de cores e passar a ser um pouco repórter.

Eu era umas das pessoas menos Zen que conhecia, com poucos conhecimentos sobre música eletrônica e não muito adepta de uma alimentação muito light. No entanto, já tive que 'passear' por essas áreas (devido a trabalhos ligados a esses temas) e gostei. Apesar do show de mantra não ter me encantado muito... já identifico as batidas drum'n base e tenho uma queda por comidas naturebas. Falo de vivenciar para deixar a criatividade florescer no layout.

Recentemente estive envolvida em um projeto sobre uma vila do recôncavo baiano, imortalizada na música de Dorival Caymmi, "Maracagalha". A fase de pesquisa durou todo o projeto (4 meses) e incluiu andanças pelas ruas do povoado, audição de causos, leitura sobre os santos da capela, fotografia das casinhas, da usina, acompanhamento das entrevistas (inclusive a de Caymmi!). Foi sobretudo um trabalho multidisciplinar, no qual, sair do mundinho "do designer" e estar aberto a sugestões de leigos no assunto foi fundamental. A música local, samba-de-roda, era o hit de todos os momentos, com o objetivo de nos ambientalizar. Nem conto quantas vezes nos pegamos cantando "eu vou pra Maracangalha, eu vou"...

Manobrar o mouse, domar o Photoshop, brigar com o Corel, ler tutoriais, bater um papo com o Flash e tentar se entender com o Encoder foi um outro passo, mas nada comparado à experiência de dar boas risadas ao lado de Maria Porcina, a sambadeira de roda, e observar como um velhinho tirava som de um simples prato de metal e uma faca.

 


A idéia do Oratório virtual surgiu num daqueles dias em que olhamos para a seção relativa à Capela de Nossa Senhora Guia no site e dissemos: o que enriqueceria esta página? Gravamos em studio a locução da oração da santa, com direito a fundo musical, e tomamos como referência para o oratório o artesanato de Paula Lemos, feito com caixinha de fósforo. A imagem de Nossa Senhora conseguimos com uma beata que mora ao lado da Capela. A animação em flash, por sua vez, deu o clima de milagreira...

A criação da marca do projeto só aconteceu quase um mês após da primeira visita à vila. O estilo lado-a-lado das casas locais, a capela e a usina basicamente nos diziam tudo sobre o lugar. Virou símbolo.

Abaixo, o logo adaptado para a campanha "Sou amigo de Maracangalha".

O site:
www.maracangalha.com

10/2002. Alice Vargas é designer.
 
    www.deZine.com.br ed. 003 | outubro © 2002.