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Tradicionalmente,
a HQ pertence a um ambiente cultural que dá pouca atenção
às revistas como objetos de design. Mesmo o movimento underground
do final dos
anos 60 e começo dos 70, que se notabilizou pela experimentação
da linguagem e de novas abordagens estéticas, surpreendeu
pouco no campo do desenho
gráfico das publicações. A situação
começou a mudar em 1981, quando o casal de quadrinistas e
editores Françoise Mouly e Art Spiegelman publicou a revista
nova-iorquina "Raw", uma antologia de quadrinhos alternativos
com consciência de arte e design.
No início dos anos oitenta, a HQ underground americana definhava
para um "estilo de vida" estereotipado, resumindo-se às
suas características mais superficiais, centradas em drogas,
sexo e escatologia. Era a anunciada decadência de uma vanguarda
que havia oferecido algo realmente novo: HQs livres de tabus estilísticos,
formais, políticos e culturais, feitas por adultos para adultos.
Se nos Estados Unidos os "comix" entravam em crise, na
França a situação naquele momento era outra.
Os franceses, inspirados no underground, tinham começado
a fazer quadrinhos para adultos de um modo muito mais viável
comercialmente do que era possível dentro da realidade americana.
As livrarias européias exibiam revistas numa grande variedade
de estilos e assuntos, em edições caprichadas e papel
de boa qualidade.
O
material europeu chamou a atenção de Spiegelman e
Mouly durante viagem destes à França em 1977. Àquela
altura, Art Spiegelman já havia publicado durante dois anos,
com seu amigo quadrinista Bill Griffith, a revista alternativa "Arcade",
dentro de uma postura mais "profissional" de trabalhar
com o gênero. No entanto, a estafa decorrente do excesso de
trabalho havia feito Spiegelman jurar nunca mais publicar uma revista
novamente. Todavia, o material europeu
adquirido durante a viagem européia obrigou Art a rever suas
convicções. Spiegelman e Mouly não conseguiam
entender a razão daquelas revistas serem
desconhecidas nos Estados Unidos. O entusiasmo gerado pela descoberta
de novos trabalhos e a situação desalentadora dos
quadrinhos americanos impulsionou o casal de quadrinistas a lançar
uma nova publicação, com projeto gráfico inovador.
A revista "Raw" chegou às bancas e livrarias em
julho de 1980,
em caráter experimental e sem expectativa de lucro, com a
intenção de publicação de apenas um
número. Para surpresa dos editores, a primeira edição
foi bem recebida. Os distribuidores demonstraram interesse e a tiragem
se esgotou rapidamente. A publicação de novos números
se tornou inevitável, à medida que "Raw"
adquiria sucesso e Art e Mouly descobriam novos
talentos para serem publicados.
Apresentando inicialmente um formato gigante,
"Raw" garantia lugar ao lado de um certo número
de novas publicações alternativas que estavam começando
a aparecer na época. Eram revistas voltadas para a
música punk e new-wave, moda, arquitetura, arte e "estilos
de vida", todas com um tamanho maior que o normal.

quadrinho de HQ de Charles Burns
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