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RAW e o design na HQ

capa de edição especial de RAWAs capas de "Raw" traziam sempre uma imagem de impacto de artistas como Joost Swarte, Kaz, Gary Panter, Mark Beyer, Charles Burns, além do próprio Spiegelman. Eram capas limpas, com pouco texto: havia basicamente o título, nomes de alguns artistas dispostos de forma discreta, e uma frase de destaque. Estas se tornaram uma marca da revista, contribuindo para sugerir o humor peculiar da publicação. Algumas frases usadas foram: "The Graphix Magazine for Damned Intellectuals" (A Revista Gráfica para Intelectuais Malditos) e "The
Magazine that Lost its Faith in Nihilism" (A Revista que Perdeu sua Fé no Nihilismo).

Os trabalhos publicados pela "Raw" apresentavam temática urbana e caráter autoral. Cada artista deveria ter sua própria voz estilística e pesquisa formal, de linguagem e narrativa. Foram publicados quadrinistas europeus, alternativos americanos que não tinham outro lugar para publicar e mesmo HQs do início do século que apresentavam características inovadoras. Um dos grandes desafios editoriais foi orquestrar toda essa variedade de vozes pessoais de modo a manter na revista um todo coerente.

Uma peculiaridade da "Raw" foram os encartes especiais, muitos deles aplicados e/ou grampeados à mão exemplar por exemplar, com a ajuda dos participantes da revista. No primeiro número foi incluído um livreto colorido, "Two-Fisted Painters", em que Spiegelman toma como assunto de sua HQ as propriedades da reprodução mecânica a cores. Em "Raw" 2 foram produzidos "cards" de chicletes denominados "City of Terror", criados por Mark Beyer, colados com genuínos chicletes em saquinhos plásticos e grampeados no miolo de cada exemplar. Subseqüentes números de "Raw" apresentaram outros brindes, como disquinhos de vinil, figurinhas, etc. A partir do número 2, a revista também passou a publicar um encarte com capítulos de "Maus", obra de Art Spiegelman que mais tarde o lançou à notoriedade, tornando-se livro best-seller e vencedor do Prêmio Pulitzer de 1992.

"Raw" parou de ser publicada em 1986. Passado algum tempo, teve lançamentos esporádicos pela editora Penguin. Nesta nova fase, ganhou mais páginas e formato menor (14x21 cm). O novo projeto editorial possibilitou a publicação de histórias mais longas, sem que a revista perdesse o seu charme.

quadrinho de Muñoz & Sampaio
quadrinho de Muñoz & Sampaio

Mais do que estabelecer uma tendência, "Raw" ficou como um marco do design que pouco influenciou outros livros americanos durantes os anos oitenta. Porém, no começo dos anos noventa publicações como "Rubber Blanket" , de David Mazzucchelli, "Nozone", de Nicolas Blechman, e diversas revistas de editoras como a Fantagraphics e Drawn & Quarterly redefiniram o vocabulário do design das revistas de quadrinhos.

Neste novo contexto cultural iniciado no final dos anos setenta e começo década de oitenta, parte das HQs passaram a considerar elementos como capa, logotipo,
porosidade do papel, tipografia utilizada. O que seriam questões pouco importantes em outras épocas são agora detalhes estimulantes, que ajudam a ampliar as possibilidades de expressão do artista. Não há dúvida de que "Raw" contribuiu muito para o enriquecimento desse cenário.

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Atualmente, Art Spiegelman e Françoise Mouly publicam Little-Lit, que pode ser considerada uma "Raw para crianças", com muitos dos artistas da própria "Raw".

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2002. Daniel Bueno é ilustrador.
 
    www.deZine.com.br ed. 003 | outubro © 2002.