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Vamos supor que temos em mãos um projeto em que o cliente
acabou de dar
total liberdade, sendo o alvo um público restrito (y). Num
país em que há muito por se construir, e as aberrações
gráficas fazem parte do nosso cotidiano, fico tentado ir
por um caminho cartesiano; mas, quando penso nos problemas urbanos
e sociais que afetam a todos - violência, desemprego, fome,
miséria... - sinto vontade de representar de maneira agressiva
o que vejo.
Como representar de forma calma e plena se os furos na alma são
tantos? Se cada vez mais o orgânico sede espaço para
o geométrico, se o que vejo pela janela é 75 % de
cimento plano e 25 % de céu, onde está o aconchego,
o calor, o caminho não previsível, a novidade que
desperta, estimula, rejuvenesce e nos fortalece para a vida?
Mas por um lado, seria um modismo a desconstrução,
influencia de Carson? Ou
um sintoma ocidental das grandes metrópoles? Ele já
não bebeu no resto do oxigênio pós Punk? E quem
foi mais Punk que os dadaístas? Acredito que apesar das semelhanças,
todos desenvolveram uma expressão própria e essa linguagem
reflete um sentimento de época que os aproxima.
Desconstruir não é patrimônio exclusivo de
Carson, são vários os caminhos para a desconstrução.
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Poster do dadaísta Kurt Schwitters, 1930
Dadá,
Dadaísmo =
"Movimento artístico que defendia o regresso ao
espontaneísmo do mundo da infância, como uma
rebelião contra as formas culturais da época,
efetuando um corte violento, através do non-sense e
da anti-arte, com os conceitos e valores vigentes."
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Desconstruir é exercitar a criatividade,
é não aceitar a realidade, é ter um um papel
de denúncia na sociedade, uma postura ativa. É através
da ruptura com a geometria que há a devolução
da condição humana de viver. Por outro lado, bancando
o advogado do diabo, a limpeza visual representa paz, plenitude,
funcionalismo, espiritualidade, estabilidade...
Gente, o que importa mesmo é o domínio dos conhecimentos
estéticos e das ferramentas, de forma que a facilidade que
temos hoje de projetar não nos
acomode e, sim, forneça novas possibilidades de composição.
O projeto gráfico
é um misto de razão e intuição variando
a intensidade de ambas.
Construir ou Desconstruir? Desde que o projeto seja o resultado
de muito suor, reflexão e autocrítica, exercício
interminável de percepção, inclusive do cotidiano,
já é um grande avanço, pois irá se diferenciar
com certeza de boa parte dos projetos famigerados que tem por aí...
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